Incontrolável: entrevista com Denzel Washington
Conseguirão o ator americano e Chris Pine parar um trem sem freios no filme de Tony Scott?
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Coragem sobre trilhos: Frank Barnes (Denzel Washington) e Will Colson (Chris Pine) unem esforços para evitar uma catástrofe ferroviária |
“Quando minha mãe dizia que uma cena não estava boa, a cena em questão tinha efeitos produzidos por computador”, lembra Tony Scott sobre sua mãe, Elizabeth, morta em 2001, aos 95 anos. Foi com ela em mente que o cineasta inglês resolveu usar apenas trens de verdade (oito locomotivas e 60 vagões) em Incontrolável, levando o orçamento deste filme de ação hollywoodiano aos US$ 100 milhões. Elizabeth Scott provavelmente aprovaria o resultado. O longa faz jus ao gênero, com trama cheia de adrenalina, tomadas nervosas, cortes súbitos e cenas que, embora irreais, parecem verossímeis na telona. Numa manhã cinzenta na estação ferroviária de Fuller, Pensilvânia, dois funcionários têm de mover a robusta locomotiva 777 (conhecida como “a fera”) por conta de uma visita de estudantes de escola primária. Na pressa de ir embora, um deles desce para mudar um desvio, deixa a 777 sozinha por alguns segundos e não consegue mais voltar à cabine. É o que basta para a máquina ganhar velocidade e sair desgovernada pela malha ferroviária de uma região industrial. A 322 km dali, em Brewster, o engenheiro Frank Barnes (Denzel Washington, em sua quinta parceria com Scott) descobre a contragosto que o condutor com quem trabalhará nessa manhã é o novato Will Colson (Chris Pine, o jovem James T. Kirk de Star Trek, o mais recente exemplar da franquia, lançado em 2009). Enquanto os dois acertam suas diferenças dentro do 1206, no outro extremo da linha a “fera” vai ganhando velocidade. Pior: de seus 39 vagões, 25 estão carregados com material inflamável. “Nós não estamos falando apenas de um trem”, alerta a chefe de operações da estação, Connie Hooper (Rosario Dawson). “Estamos falando de um míssil do tamanho do Edifício Chrysler.” Esse “míssil” ruma, sem controle, para a cidade de Stanton, onde uma curva elevada e em “S” pode fazê-lo descarrilar sobre reservatórios de combustível. O veterano Barnes e seu colega menos experiente tentarão parar a locomotiva. Movido a sequências repletas de tensão, o roteiro de Mark Bomback consegue se manter eletrizante até a última cena.
Leia a entrevista com Denzel Washington em Los Angeles*:
ÉPOCA SÃO PAULO » O trem incontrolável é uma metáfora dos EUA? DENZEL WASHINGTON » Não [risos]. A história poderia se passar na Rússia, na Alemanha, em qualquer lugar onde há questões econômicas como as que lidamos hoje em dia. E qual país está se dando bem atualmente? A China, talvez? Mas os chineses também têm seus problemas. Eles agora precisam aprender a lidar com o sucesso, por exemplo.
Incontrolável é seu quinto filme com Tony Scott. Você se sente em casa ao trabalhar sob a direção dele? Sim, mas sempre parece uma experiência nova. Quando cheguei ao escritório para falar do filme, ele tinha trenzinhos, fotos de trens grandes, livros, vídeos e todo material sobre o acidente, com cenas verdadeiras do trem desgovernado [um acidente sem vítimas, ocorrido em 2001, em Toledo, Ohio, serviu de ponto de partida para o roteiro]. Além de ser um cineasta maravilhoso, tem um entusiasmo incrível. É confortável trabalhar sob as ordens dele, sei que vou me divertir. Tony sempre dá um jeito de me pôr em cenas perigosas [risos].
Fale sobre seu personagem, o engenheiro Frank Barnes. Sou um dos veteranos que estão perdendo o emprego, mas basicamente o trem é o centro do filme. Ele está desgovernado e temos de pará-lo. Há ação constante, com muitas cenas perigosas e caras voando pela janela. Tony filmou cenas de choque entre trens enormes, de verdade! Quando chegamos perto do fim, eu estava num clima de torcida. “Eles vão conseguir!” [risos]. É cinema puro, uma grande viagem – com o perdão do trocadilho. Filmamos numa área pobre, onde os empregos sumiram. Precisávamos de 50 extras e apareciam 2 mil. Usamos como locação umas fábricas enormes, que estão vazias. Os russos estão comprando esses galpões. Não sei para quê, mas estão.
No filme, homens comuns assumem o papel de heróis. Você acha que precisamos de mais pessoas assim? Qualquer pessoa pode se tornar um herói. Presidentes fazem coisas heroicas, por exemplo. Mas ninguém pratica atos heroicos porque planeja. Algumas pessoas encaram a situação, outras decidem correr dela. Há um documentário francês fascinante sobre o 11 de Setembro [refere-se a 11/9, de Jules Naudet, Gédéon Naudet e James Hanlon, exibido pela rede de televisão americana CBS em 2001]. Uma das cenas mostra os bombeiros entrando no World Trade Center com seu equipamento e olhando para tudo aquilo. Dá para ver em seus rostos que eles pensam: “Não vou conseguir sair daqui”. Eles sabem disso. Mas você não vê ninguém correndo. Talvez quisessem, não sei, mas não correm. Esse momento de decisão é que faz um herói.
*O repórter viajou a convite da Fox
INCONTROLÁVEL (Unstoppable, EUA, 2010, ação, 121 min.)De Tony Scott, com Denzel Washington, Chris Pine, Rosario Dawson, Kevin Dunn e Lew Temple. Estreia sexta (7/1).
Fonte: http://revistaepocasp.globo.com/ - 06/01/2011
















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